A hora e a vez do consumidor

A indústria tem vivido num mundo de mercadorias e produtos, mas deverá se confrontar de maneira ainda mais intensa com o novo protagonista do mercado: o consumidor. Ele vem solicitando alternativas para os mais diversos materiais, entre eles o couro. E o mercado vem tentando responder ao movimento crescente de consumidores interessados em outras opções de compra. O consumidor quer ter a liberdade de escolher, combinar produtos, serviços e estilos de acordo com seu estilo de vida.

A bolsa Falabella Itsy Bitsy, de Stella McCartney, traz os detalhes da lã em relevo, alça de corrente e pingente colorido da marca

Nas indústrias, por outro lado, o design precisa se libertar dos pensamentos tradicionais e adotar as experiências dos consumidores como referência. Francesco Morace, sociólogo italiano, fundador de uma das mais conceituadas empresas de tendências, o Future Concept Lab, ao tratar sobre o consumo autoral, fala que inovação significa permitir que o design e a criatividade tenham esta função, que até há pouco tempo era exclusiva da tecnologia.

Esse comportamento é percebido claramente nas novas gerações, que cresceram conectadas aos conteúdos virtuais, fortes influenciadores no estabelecimento de novos parâmetros de comportamentos para pensar, decidir e avaliar. A capacidade de combinações típicas do recorta, copia e cola leva à criação de novos arranjos, à velocidade dos torpedos, Snapchats
e WhatsApps – entre outras formas de faça você mesmo virtuais –, que são todas manifestações do consumo autoral.

O mercado vem respondendo num movimento crescente às pessoas em busca de novos estilos de vida como, por exemplo, aqueles consumidores que querem uma vida sustentável. Esta tendência ganhou força também em sintonia com o slow fashion, movimento em alta por conta dos Millenials, conhecidos por serem cada vez mais sensíveis a esta questão. Isto tem dado às marcas argumentos de marketing para abordá-los.

Uma das inovações mais recentes é o Piñatex, feito a partir das folhas do abacaxi, que eram descartadas como resíduos

MODA sustentável em pauta
No início de 2016, Amélie Pichard juntou-se a Pamela Anderson para criar uma coleção de sapatos 100% veganos. A inspiração veio de Stella McCartney, uma das maiores ativistas da moda sustentável, que lançou uma versão da sua bolsa Falabella em lã de ovelha, retirada num processo simples de tosa. O storytelling da coleção envolvia a origem da lã utilizada para a produção do acessório, proveniente das ovelhas de estimação da fazenda da própria estilista, localizada em Cotswolds, interior da Inglaterra. Tanto que o item levou o nome das duas ovelhas que “cederam” sua lã para a confecção de 38 peças: Itsy e Bitsy. Para seus sapatos e produtos que originalmente seriam de couro, Stella McCartney usa materiais à base de plantas e laminados sintéticos.

Viva a NANOTECNOLOGIA!
Hoje, a busca por materiais inovadores tem seguido o rumo da sustentabilidade, com desenvolvimento de materiais a partir da fibra do abacaxi e da casca da laranja, por exemplo – que, inclusive, tem a propriedade de liberar nutrientes que podem ser absorvidos pela pele. Tudo graças à nanotecnologia, que permite a criação de novos materiais por meio da manipulação de átomos e moléculas. Óleos essenciais e a vitamina C derivados da fruta são fixados ao material em microcápsulas e transmitidos ao corpo gradualmente.

NOVO COURO
A indústria do luxo, mirando este novo consumidor, além daquele que não abre mão do couro, tem incentivado pesquisas cujo objetivo é cultivar células-tronco em laboratório e obter um novo material de origem animal, que será posteriormente escurecido para adquirir características estéticas do couro. Mas as bolsas, carteiras ou sapatos feitos por meio deste processo revolucionário não chegarão às lojas antes de dez ou 15 anos. 
O grupo Kering, proprietário de marcas como Gucci, Bottega Veneta, Saint Laurent, Alexander McQueen, Balenciaga e Stella McCartney, é um dos que investem nesta pesquisa e, além disto, promove o Prêmio Kering de Moda Sustentável que, em 2016, elegeu um material desenvolvido para calçados e bolsas a partir de cogumelos, criado por Irene-Marie Seelig.
Na França, a ascensão de materiais que competem com a indústria do couro foi tão expressiva que fez com que os representantes da associação comercial do setor argumentassem que o termo “couro” deveria ser exclusivamente reservado para seus produtos. Segundo Jérôme Verdier, presidente da associação, o couro é a indústria de reciclagem mais antiga do mundo e sua observação pode ser usada para confirmar a magnitude da tendência de couro alternativo.