O ESPETÁCULO DOS DESFILES NA COMUNICAÇÃO DE MODA

A proposta dos desfiles é dar identidade visual a uma coleção de moda de uma marca ou criador e transmitir o conceito a partir do qual ela foi criada. É o elemento de ligação entre o criador e seu público, seja ele especializado ou o consumidor final, mostrando em forma de espetáculo as inspirações que o nortearam. A ideia é fazer com que o consumidor entenda valores intangíveis por meio de objetos palpáveis. Mas como acontece esse processo?

Tudo começa com a prospecção de tendências para a criação de uma coleção. É importante a aplicação destas tendências no design dos produtos de moda dentro do contexto da compreensão do por que e como se manifestam. A pesquisa de tendências deve ser entendida como uma linguagem, que vai fazer o produto e sua comunicação dialogarem com o consumidor na hora da apresentação da coleção a ele, orientando também os designers na criação de produtos de moda em sintonia com os desejos e necessidades do mercado.

Para chegar ao conceito de um novo produto, é preciso descobrir com muita antecedência o que o consumidor desejará receber, ou criar novas necessidades e, além disso, saber exatamente o que o mercado já oferece e o que já foi apresentado em termos de desfile. Com a atual pluralidade de informações, somente o novo vai dar impacto e destaque ao desfile. É o que vai torná-lo relevante e fazer com que seja divulgado como inovação, que é o que o público quer e vai prestar atenção quando se trata da comunicação das marcas.

É preciso que elas estejam refletindo um panorama cultural contemporâneo, que deve sempre ser usado para a elaboração de uma coleção atualizada e comercialmente situada. E isso se dá com muito tempo de antecedência. A utilização de artifícios que repercutem o espírito de seu tempo aparece como tática utilizada por empresas, que buscam decifrar e antever os anseios dos consumidores e as qualidades do mercado comercial num futuro determinado.


#A IMPORTÂNCIA DAS IMAGENS 
Mas como comunicar estas tendências de maneira que elas sejam percebidas pelo mercado? Através do espetáculo. Guy Debord, o escritor francês criador do conceito de “sociedade do espetáculo”, definiu o espetáculo como o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens. O papel desempenhado pelo marketing, sua onipresença na sociedade contemporânea, ilustra perfeitamente bem o que Debord quis dizer já nos anos 1960: das relações interpessoais à esfera política, que tem abusado do espetáculo na mídia, tudo está mercantilizado e envolvido por imagens. E as marcas se utilizam primordialmente delas para comunicar seus conceitos de moda, seja através da propaganda, dos catálogos que divulgam suas coleções, ou de outros meios de comunicação impressa e, por fim, dos desfiles, a imagem em movimento por excelência, mesmo antes da proliferação dos filmes publicitários em canais das marcas ou o Youtube.

#CONVERGÊNCIA DE LINGUAGENS
E o espetáculo apresenta-se como espaço de convergência de diversas linguagens, utilizando-se o som, a iluminação, o cenário, a decoração, os modelos, sua maquiagem e produção, muitas vezes os odores e vídeos simultâneos, dentre outros recursos, como meios de despertar sensações e fazer aflorar o prazer dos sentidos nos espectadores. Com a própria acentuação e exacerbação de determinados elementos marcantes que reforçam o conceito da coleção beirando, muitas vezes, o exagero, o impacto causado nos expectadores é desejado e estimulado pela mídia, sedenta pelo novo e inusitado.

Os desfiles são uma das mais poderosas armas de comunicação para o mercado utilizadas pelas empresas. O impacto causado por eles geralmente é uma inigualável ferramenta geradora de publicidade. Quanto mais impacto causam, mais são replicados na mídia na tentativa de impressionar e buscar reconhecimento das marcas perante o público.

#FUTURO DUVIDOSO
O futuro dos desfiles vinha sendo comentado por especialistas da área como incerto e como uma sucessão de eventos de rotina já esperados a cada estação. Ledo engano. Cada vez mais, o consumidor é pego de surpresa por cenários inusitados, como supermercados ou passeatas de rua, onde o que verdadeiramente está em jogo é a audácia, a astúcia e a projeção da ousadia de uma determinada marca. Assim, a roupa deixa o centro em torno do qual gira o espetáculo para ser o complemento de um objetivo maior, que é a transmissão de uma imagem através de um conceito. 

Acredito, no entanto, que novas formas de expressão para as marcas e a moda virão, para além dos desfiles, possibilitadas pelas novas tecnologias, e que podem se tornar uma nova maneira de representação das coleções e do momento da sociedade que eles retratarão. Mas uma coisa acredito que, por muito tempo, ainda permanecerá: o público sempre buscará a exclusividade dos convites, os assentos da primeira fila e a proximidade das celebridades que frequentam as salas de desfiles. O desafio é saber lançar mão disso tudo nas novas formas de expressão. A mídia não saberá viver sem estas notícias.