Cross dressing

A moda redefinindo os códigos de vestir além de gênero e sexo 

Mulheres vestidas com roupas masculinas não chegam a chocar ninguém, mas como será quando os homens desafiarem regras sociais e saírem por aÍ vestindo roupas femininas? Será que caminhamos para isso? A moda, atualmente, tem buscado novos códigos de vestir, procurando, cada vez mais, por um guarda-roupa unissex, feito para ser compartilhado por homens e mulheres.

Antes de tudo, é importante começar falando sobre o que se entende sobre os termos “sexo” e “gênero”, usados aqui. Embora muitas pessoas os utilizem de forma intercambiável, as duas palavras não têm o mesmo significado. “Gênero” é uma construção social, psicológica e cultural; é o papel social com o qual uma pessoa se identifica. A nossa razão para polarizar os “gêneros” é influenciada por “sexo”, isto é, a dicotomia biológica do macho e da fêmea.

Sabemos que as roupas para homens e mulheres são culturalmente definidas. As normas culturais e as expectativas estão relacionadas com o significado de ser um homem ou mulher nas diferentes culturas. O kilt escocês, por exemplo, ainda usado em muitas reuniões sociais para estabelecer uma identidade social e cultural, representa a masculinidade, apesar de ser uma saia. Raramente seria usado socialmente por pessoas do sexo masculino em qualquer outro lugar do mundo. Na Indonésia, homens e mulheres usam o sarong,um tecido retangular amarrado na cintura, formando uma saia ou vestido, também adotado por ambos os sexos em partes da África Ocidental. Na cultura ocidental, o sarong só seria visto no teatro, cinema, ou no contexto de alta costura ou moda de vanguarda.

Mas no momento atual, o cross dressing, ou seja, o uso de roupas tradicionalmente direcionadas a um sexo por outro, vem se configurando como uma nova forma de expressão para a moda: iniciada por descolados com a onda normcore, esta tendência de simplicidade e de equalização tem se espalhado, procurando por mudanças nos códigos de vestir.

 

 :: VERTENTES

Várias vertentes tem se configurado. Numa mais comercial, mostrada por grifes como a Prada e a Gucci, na semana de moda de Milão; Diane Von Furstenberg e Michael Kors, na semana de Nova Iorque, e na francesa pela Givenchy, abusou-se de referências de looks masculinos tradicionais nas roupas para as mulheres, mas com uma profusão de cores, tecidos e silhuetas tradicionalmente femininas, que passaram longe da androginia. Injetar detalhes masculinos nas roupas parece mais uma forma de atender uma série de mulheres que estão desafiando a onda de sensualidade exacerbada estampada nos editoriais de revistas femininas, mas visando estabelecer uma feminilidade que não busca uma oposição à masculinidade.

Trata-se do “novo feminismo”, que busca uma união com os homens, como pregou o movimento He for She. Enquanto a mulher lutou pela igualdade entre os sexos, fumando e vestindo blazers num momento de boom econômico, sua nova postura parece que também tem muito a ver com o estado atual da economia.

Na São Paulo Fashion Week, as marcas femininas também invadiram o terreno masculino, mas isto ficou só em referências, pois os looks também privilegiaram as formas femininas acima de tudo. Mesmo a grande quantidade de sapatos de amarrar com ares masculinos sempre tinham uma biqueira dourada ou outro detalhe que os feminilizasse. Já numa outra vertente, usando códigos femininos em coleções masculinas, marcas francesas de vanguarda foram muito mais além, adentrando um terreno que seria extremamente delicado explorar aqui no Brasil.

:: SEX APPEAL
Mas os franceses o fizeram e em profusão: durante a semana de moda masculina de Paris, a marca parisiense AMI, ícone BoBo (Burguesia Boêmia), vestiu a supermodelo de androginia Agathe Mougin com um amplo casaco verde pistache e cabelo penteado para trás. Mas foi só esta menção ao cross dressing que o desfile mostrou: as silhuetas femininas não foram a forma adotada, mas sim uma profusão de vestes, por assim dizer, que deram uma sensação de fluidez que levou a coleção para além da definição de gêneros. O designer fundador da marca, Alexandre Mattiussi, visa assumidamente vender também para o público feminino, como costuma dizer: “As mulheres são tão parte da influência da marca, assim como os homens.”

E a marca AMI não foi a única a repensar conceitos. Grifes francesas independentes como o Études Studio ou Laurence Airline também usaram modelos femininos em seus desfiles. E um tamanho P ou PP mostrou-se perfeito para uma mulher levemente andrógina. Isto demonstra que há um desejo de uma feminilidade que não está situada em estereótipos extremos. Não se pensa em hiperfeminilidade e nem numa masculinização clichê, mas em códigos circundantes, com sex appeal.

Uma terceira vertente, com marcas assumidamente unissex, como a londrina Suwun, abriu um espaço pop-up na onda da iniciativa da Selfridges, loja de departamentos que investiu pesado na nova onda. Numa iniciativa de oito semanas, chamada Agender, ocupou três andares com produtos unissex. Um deles com itens de beleza, outro com artigos top de luxo com marcas como Yohji Yamamoto e Rad Hourani, e um terceiro com moda voltada para jovens. Parece, com isso, querer experimentar estas novas regras que a moda lança agora. Com a entrada da geração Millenials no mercado de consumo, novas iniciativas mercadológicas terão de ser testadas.

Modelagens mais soltas e as peças com influência do sportswear prometem ser as apostas destas empresas para o design unissex. A ideia foi agitar o mercado através da exibição conjunta de filmes, música e fotografia nas lojas de Londres, Manchester e Birmingham e, ao mesmo tempo, online, onde o produto é mostrado tanto em modelos femininos, quanto masculinos.

:: TODO PODER AO TÊNIS
Fabricantes investem no unissex querendo atrair consumidores de ambos os sexos, como no caso dos calçados esportivos. Prova disso é a nova onda de tênis esportivos nas linhas de frente da moda, desafiando os Louboutin nas passarelas, e que apareceram inundando os desfiles das ultimas temporadas. A modelagem foi adotada também pelos principais editores das revistas de moda e estampa uma quantidade infinita de editoriais.

A Selfridges navega nesta onda e, como é conhecida por estar na vanguarda das tendências de varejo, seu espaço dedicado ao vestuário unissex pode significar a proliferação de espaços de gênero mais neutros no varejo de moda.

No Brasil, o Facebook desde março último já abriu espaço para o usuário identificar-se com novas e várias opções de gênero. Para além do “feminino” e “masculino”, também será possível identificar-se como “homem transsexual”, “travesti”, “mulher (trans)”, “crossgender”, “neutro” e “sem gênero”, em um total de 17 categorias. O usuário que não se identificar com nenhuma das opções sugeridas poderá definir sua própria identificação. Esta opção já estava disponível nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado e, agora que chegou por aqui, é esperar pra ver o reflexo das mudanças em curso na sociedade se refletirem nas redes sociais.