O FEMINISMO está na MODA?

Acostumados aos estereótipos e exclusões que a maioria das grandes marcas comunicam em suas coleções e campanhas, nas últimas estações fomos surpreendidos por atitudes que ressignificaram o papel das mulheres na sociedade em busca da igualdade. Seria só modismo?

Em seu livro Why I Am Not a Feminist (“Por que não sou uma feminista”, em tradução livre, título que já é uma provocação, claro), a escritora americana Jessa Crispin considera que, hoje, o feminismo virou um estilo de vida: um exercício de marketing, mas que, sem dúvida, tem se tornado ultrainclusivo, na medida em que não exige absolutamente nada daqueles que compram os produtos vendidos em nome de um feminismo de propaganda. 

Em entrevista, ela cita a camiseta da Dior que diz: We should all be feminists (“Nós todos devemos ser feministas”) como exemplo de que ela nada mais é do que uma maneira de dizer: posso pagar 600 dólares por uma camiseta. Ou seja, o feminismo foi inteiramente cooptado pelo consumismo. No entanto, a nova diretora criativa da Christian Dior, Maria Grazia Chiuri, é a primeira mulher a assumir o papel na marca em seus 70 anos de história. É óbvio dizer que ela não se esquivou de enviar uma mensagem feminista em sua coleção de estreia na primavera de 2017. Entre seus vestidos românticos, saias e roupas inspiradas na esgrima, havia a camiseta sobre a qual Crispin comentou. 

Hit do Instagram

Que o sucesso no Instagram (a peça foi uma das mais postadas de todos os tempos) tenha gerado ao menos curiosidade sobre o tema. Para Chiuri, foi fonte de mais inspiração: em fevereiro de 2017, na Semana da Moda de Milão, temporada de inverno 2017/18, ela passou novamente a mensagem da luta feminina, inspirando-se nas vestimentas usadas nas fábricas pelas mulheres durante a Segunda Guerra Mundial. 

Prabal Gurung também aderiu

Mas não foi só a Dior que usou frases em camisetas. Na Semana da Moda outono-inverno 2017/18 de Nova York, o estilista Prabal Gurung vestiu (e suas modelos também) camisetas com mensagens feministas e de empoderamento feminino. Lançou, também, t-shirts com as frases The future is female (“O futuro é feminino”), This is what a feminist look like (“Esta é a aparência de uma feminista”), Break down walls (Derrube muros) e Girls just wanna have fun-damental rigths (em alusão à letra Girls Just Wanna Have Fun, de Cyndi Lauper, para dizer que as garotas só querem seus direitos básicos). 

Female up rising

Quem estuda tendências sabe que entre elas está o female up rising em todos os setores de atividade e em nível internacional. O reconhecimento de que as mulheres estão, cada vez mais, preparando o caminho para uma integração plena na sociedade, vem de todos os lados. Assim como a indústria da moda adotou o girl power e o transformou em ferramenta de marketing, marcas também viram no universo fashion um modo de veicular uma mensagem que pode favorecer as mulheres. A quem sugere que as marcas só se apropriam do feminismo para aumentar as vendas, muitos respondem que isso não incomoda, desde que conscientize a sociedade como um todo de que a luta das mulheres pelos mesmos direitos dos homens está viva. 

→ Trajes de banho para muçulmanas 

Mas o que deu mesmo o que falar e levantou muitas discussões sobre os direitos das mulheres num lançamento de moda foi a associação da Marks & Spencer e Dolce & Gabbana visando atender o mercado feminino muçulmano com trajes de banho de corpo inteiro com a aparência de hijabs. Esta ação provocou, instantaneamente, o debate sobre a liberdade das mulheres de poder usar o que quiserem. Pierre Berge, co-fundador da Yves Saint Laurent, se envolveu e batalhou pelos direitos das mulheres. Anniesa Hasibuan logo conquistou o posto de primeira designer a fazer um hijab para cada look em seu desfile durante a Semana de Moda de Nova York, em modelos com a ousadia possível.

Hip Hop x objetificação feminina 

Abordagens artísticas também suscitaram discussões sobre o feminismo. A artista Zoë Buckman apresentou em sua coleção Every Curve bordados de letras de hip hop sobre lingerie vintage, lançada em uma instalação de arte. A londrina nos faz repensar sobre o significado – muitas vezes degradante – das letras do hip hop nessas roupas íntimas delicadas. Como artista, o trabalho de Buckman explora temas do feminismo e usa a moda para enviar uma mensagem de promoção da igualdade. A instalação examina as roupas íntimas vintage e o que representavam para a objetificação feminina.

Em entrevista à revista iD, Buckman disse que é difícil ser feminista e fã do hip hop ao mesmo tempo. Embora amemos as batidas, quando ouvimos as letras com cuidado, a quantidade de palavras degradantes nas músicas nos deixa enfurecidas: “Como feminista, minha abordagem não é evitá-las ou dizer: isso é ruim, nunca mais quero ouvir isso. Minha abordagem é levar suas palavras e recriá-las como algo bonito e provocador”. 

Com a palavra, Miuccia e Donatella

Miuccia Prada, igualmente apropriando-se da defesa da causa feminista em sua coleção, deu a seguinte declaração aos jornalistas: “A moda é sobre o dia a dia e esse cotidiano é o palco das nossas liberdades, quer na vida privada, quer na pública. Neste desfile outono-inverno 2017/18, decidimos olhar para o papel das mulheres na formação da sociedade moderna, a sua participação política, as conquistas sociais.” Ainda na Semana de Milão, a estilista Donatella Versace afirmou que a moda tem o dever de falar sobre o contexto em que está inserida: o perigo dos nacionalismos, a vitória de Donald Trump à presidência dos EUA, a marcha das mulheres em protesto após sua cerimônia de posse. “Chegou o momento de retomar a luta”, disse, enaltecendo a inclusão. 

Decididamente, a moda tornou-se uma alavanca do feminismo, e é só esperar que a realidade esteja realmente mudando. O fato de este segmento colocar o tema nas passarelas só gera curiosidade, sede de saber e mudança de mentalidades. Ver tantos estilistas levantando a bandeira do feminismo simultaneamente, tendo a ousadia de exaltar o feminismo numa indústria machista como é a da moda, já é digno de nota.