NEM TÃO PUNK ASSIM

A MODA DIZ NÃO AO PUNK REVOLUCIONÁRIO E SUJO E SAÚDA UM PUNK BELO E FASHIONISTA, MOSTRANDO COMO UMA CORRENTE NIILISTA DA CONTRACULTURA FOI DEIXADA PARA TRÁS, MAS VOLTOU À VIDA EM UMA PASSARELA INTEGRADA AO MAINSTREAM.

 

“Obcenidades e Fúria” estampou a capa do Daily Mirror numa manhã de dezembro de 1976, depois de uma entrevista do grupo Sex Pistols, ao vivo, num programa de TV de audiencia familiar. O guitarrista, Steve Jones, exibia uma camiseta impressa com a imagem de um par de seios femininos nus, cheia de alfinetes e tachas. Tanto o apresentador, quanto o público ficaram indignados, para dizer o mínimo. Esse parecia ser o fenômeno mais transgressor na música pop, mas a história já provou que era mais do que isso.

Os punks de Londres eram jovens subempregados, entediados e enfurecidos, desanimados com suas perspectivas num período de recessão na Inglaterra, e que se voltaram contra o establishment. A única resposta, para eles, era declarar guerra contra a hipocrisia dos britânicos de “bom gosto e boas maneiras”.

Muito desta guerra se deu através de música e também da moda. Seu lema era “Não temos heróis” e seu credo era o DIY (faça você mesmo, na sigla em inglês). O caminho para o punk não podia ser consumido, mas criado e personalizado a partir de peças de brechó, e a estética mais emblemática do movimento foram os alfinetes e, é claro, as tachas.


A exposição no Metropolitan Museum of Art em Nova York atraiu fashionistas e celebridades do mundo todo

O alfinete, um humilde instrumento de fixação, inventado em 1849 e por muito tempo associado às fraldas, já tinha um pouco de um passado contracultural. A drag queen Jackie Curtis tinha enfeitado seus vestidos com alfinetes de segurança na década de 1960 e, no início dos anos 1970, o cantor e poeta Richard Hell, da banda Television, havia também adornado sua camiseta rasgada com eles e com tachas. Mas só depois que Johnny Rotten, do grupo Sex Pistols, entrou em cena com alfinetes pela roupa é que eles se tornaram o emblema oficial do movimento punk. Pobreza, Rotten disse, foi a origem de seus farrapos remendados. E os alfinetes tornaram-se um fetiche, um talismã.


Num misto de Punk e Grunge Saint Laurent trouxe o dark novamente às passarelas, num look inspirado em Debbie Harry, volcalista do grupo Blondie

O punk invadiu pela primeira vez a moda comercial quando a estilista inglesa Zandra Rhodes lançou um vestido de jersey de rayon preto com rasgos falsos, correntes e alfinetes, como parte de sua coleção Conceitual Chic de 1977. E, apartir daí, cruzou o oceano e invadiu continentes. Os grandes estilistas abraçaram a estética e fizeram o que se convencionou chamar de “punk de boutique”, ou seja, o punk despido de suas ideologias e só com pretensões estéticas. Hoje, alfinetes cravejados de strass ou brilhantes e tachas de todas as cores e formatos adornam jaquetas de couro preto e jeans afunilados tornaram-se referências de design perenes e tão clássicos como um blazer azul, um mocassim ou um terno.

A longevidade da estética é, ironicamente, ainda mais impressionante, tendo em conta os seus objetivos anarquistas originais e sua estética transgressora. 


Look Givenchy do desfile Inverno 2014

Hoje revisitado de maneira intensa, o movimento punk é motivo de exposição no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. A exposição “Punk: Chaos to Couture” (Punk: do Caos à Alta-Costura, em tradução livre), organizada pelo instituto de vestuário do museu, ocupa as galerias até 14 de agosto de 2013.

E os cabelos moicanos, as tachas e as jaquetas de couro ganharam espaço não só a moda de rua, mas também na alta-costura. Em alusão à exposição, a maioria dos estilistas usou referencias ao movimento em suas coleções para o inverno 2014, tendo como inspiração grandes nomes que invadiram sete galerias do museu, como Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Christopher Bailey (da Burberry), Martin Margiela e Gianni Versace, entre outros. Além da moda, a exposição homenageia o bar CBGB de Nova Iorque, onde tocavam artistas como Blondie, Ramones e Patti Smith.