O FUTURO DO PRESENTE NA MODA

“Até 2050 nosso cotidiano vai ser cada vez mais mediado por dispositivos integrados ao corpo. As máquinas terão inteligência e comportamento próprios e as distâncias entre a Terra e o espaço sideral serão sensivelmente encurtadas. O avanço nas telecomunicações, na pesquisa e desenvolvimento de interfaces e os novos materiais estão na base do admirável mundo novo”. Gisele Beiguelman

  
Estética futurista por André Courrèges.

Bem-vindo ao futuro do presente. Aqui os avanços tecnológicos estão criando uma nova realidade, formada pela biotecnologia, a inteligência artificial, a neurociência e a nanotecnologia. A ficção científica abre espaço e funciona como referência para um novo momento entre o homem e a máquina, caracterizando algo inédito e real, dando início a uma era de redefinição e reinvenção. Fala-se de uma nova revolução industrial, que também pode ser definida como a terceira revolução industrial, na qual a manufatura está sendo conduzida para o campo digital. Uma série de novas tecnologias começam a surgir, disseminando softwares inteligentes, robôs mais ágeis e novos processos como a impressão 3D, que torna possível a fabricação digital de desenhos feitos no computador e materializados por meio do uso dos mais diversos materiais: plásticos, resinas, gesso, metal e outros.

 
Macedonia de Janne Kyttanen 

A tecnologia de impressão 3D já existe desde 1950, mas somente agora, com o barateamento dos softwares e hardwares teve rápida disseminação. Deu-se início a uma nova era repleta de possibilidades, que permite ao ser humano descobrir e reinventar através do uso das máquinas. Designers, como o finlandês Janne Kyttanen, já começam a utilizar a tecnologia em suas criações, com destaque para o intitulado Macedonia, o primeiro sapato ‘impresso’ em impressora 3D e disponível gratuitamente para download, com possibilidade de personalização do tamanho e cor. Macedonia faz parte de uma coleção formada por quatro modelos (Macedonia, Facet, Leaf e Classic) e inspirada na bandeja Macedonia, que integra o acervo permanente do Museum Of Modern Arts in New York, 2012. Na visão de Kyttanen envolve revolucionar a forma de fazer compras e possibilitar ao consumidor o controle de suas próprias demandas e concepções.


Rebecca Minkoff Minutos antes do desfile, Rebecca Minkoof mostrou exclusivamente 5 modelos do total de 10 que seriam apresentados na NYFW, via Snapchat.

A transição para o futuro também envolve o controle da realidade amplificado pelas novas necessidades humanas de conexão, interação e conveniência. E, para exemplificar o uso da ‘smart technology’ e a forma como é possível integrar novas tecnologias para promover produtos e marcas, destaca-se a inusitada ação da designer Rebecca Minkoof durante a última New York Fashion Week. Minutos antes do desfile, Rebecca mostrou, exclusivamente via Snapchat — que é um aplicativo que permite ao usuário enviar mensagens, fotos e vídeos que, após serem visualizados, são automaticamente deletados, leia-se autodestruídos — cinco modelos do total de 10 que seriam apresentados.

A coleção conta com três abordagens diferentes:

:: HIPOGRAVITY: formada por três
pumps, nas quais foram utilizadas técnicas de formação à vácuo, materiais leves como lycra e EVA, e solado de espuma. A combinação destes materiais alonga a silhueta do corpo, da panturilha aos pés. A sola e o salto são fundidos em forma bimorfa.

  

:: REINFORCE: baseia-se no fato de que o mundo é cercado por uma imensa quantidade de satélites flutuantes. Eles representam o frágil, o fragmentado, a clausura e a cápsula. O couro foi trabalhado e as superfícies reforçadas com métodos como óleo, técnicas de prensagem e fluídos de fixação. As cápsulas de couro são feitas de uma única peça, que evolui a partir da construção em torno do couro até que finalmente seja esculpido um padrão. Os vincos criam uma forma de três dimensões que ora ocultam, ora realçam partes do pé.

  

:: GRAVITATION: baseia-se na batalha da humanidade para vencer a gravidade. Aqui são utilizados materiais pesados, duros, firmes e resistentes. O couro chamado ‘wet blue’ — ainda inacabado dentro do processo de curtimento — foi o elemento chave da criação. Foram construídas e dobradas múltiplas camadas desta matéria-prima, que após a secagem resultaram num sapato de armação dura.

  

Mas quando se fala em futuro, não se pode esquecer do visionário estilista francês André Courrèges, considerado o ‘engenheiro da moda’. Por meio de suas criações, Courrèges imortalizou a estética futurista, diferenciando a estrutura das roupas com base nos conceitos de “arquitetura com descontração” e “flexibilidade arquiteturada”. Em 1964 lançou a coleção Space Age, que conseguiu captar o espírito do tempo de uma época em teve que início a corrida espacial, e na qual nasceu o Youthquake! (The 1960s Fashion Revolution), em que a subcultura e os jovens ditavam e consumiam a moda.

O estilo “viagem espacial” de Courrèges serviu de inspiração para a coleção Encapsulated, de Nienke van Dee, resultado de um projeto de pesquisa sobre novas formas para os calçados femininos, baseado na visão de um futuro em que a viagem espacial é prática comum. Depois de coletar e estudar os tipos de materiais adequados, o designer buscou traduzir as características de estrutura, forma e materiais para o detalhamento e desenvolvimento dos sapatos.

   
Processo criativo e de produção dos modelos da coleção ENCAPSULATED, de Nienke Van Dee.

No futuro serão necessárias tecnologias e soluções inteligentes que facilitem a vida dos indivíduos. As pessoas buscarão um conhecimento mais aprofundado sobre a forma como produtos e serviços podem beneficiá-las e ajudá-las no dia a dia. Cada vez mais os consumidores irão procurar saber o que está por trás de um produto, a fim de consolidarem suas decisões de compra. Transparência será a nova “qualidade”, já tão utilizada (e desgastada) nos discursos das marcas e produtos.

   

E lembre-se, quando falamos da forma como a visão de futuro vem sendo aplicada na moda, não se trata apenas da estética e estilo futurista, mas também dos avanços tecnológicos criados em sociedade e que estão mudando as formas de se relacionar, pensar, consumir e agir. Essa revolução mudará não somente “o como” as coisas são feitas, mas “onde” são feitas. Procure refletir sobre essas mudanças, sobre o quanto e como estão influenciando ou irão impactar seus negócios.