Perfectly imperfect

Você já ouviu falar sobre a “fadiga da perfeição”? Pois é, ser perfeito cansa, estressa. E, ao que parece, é cada vez maior o engajamento dos indivíduos na busca pela verdade, essência e por aquilo que é autêntico, abraçando a “causa da imperfeição”. O mindset por trás desse novo comportamento envolve o cansaço relacionado à ditadura do “perfeito”, resultando num movimento sensível ao apelo do “imperfeito”. Logo, enquanto a perfeição se torna intimidante, a imperfeição vem sendo considerada um reflexo da autenticidade.

:: “Nothing lasts, nothing is finished, and nothing is perfect”
A questão é que está cada vez mais fácil esconder nossas imperfeições e manipular a imagem que desejamos transmitir aos outros. Os recursos digitais acabaram alterando a percepção do que é real/autêntico em relação ao que é falso/fabricado, seja através de aplicativos com filtros para fotos, seja por ângulos milimetricamente calculados a fim de destacar o melhor e disfarçar o pior.

Trata-se da “epidemia do narcisismo”, que acaba influenciando quem somos, a forma como vivemos e nos relacionamos; tudo isso propiciado pelo ambiente de reality show no qual estamos inseridos.

É o culto indiscriminado às celebridades e ao uso excessivo das redes sociais, em que o valor de alguém pode ser medido pela quantidade de pessoas que curtem suas postagens no Facebook e/ou Instagram. Todos querem ser pop. Todos querem ser especiais. E acabam se utilizando dos mais diferentes recursos para serem notados, amados, aceitos. Um cenário disforme, no qual acaba-se medindo a significância ou insignificância do indivíduo com base em parâmetros distorcidos.

:: E de que forma a tendência “perfectly imperfect” está se manifestando?

1| Revistas de todo o mundo trazem para suas capas e editoriais imagens de mulheres que fogem aos atuais padrões de beleza

2| Marcas que eliminam os estereótipos de suas campanhas publicitárias, dizendo não à “beleza fabricada”, ao buscar imagens da vida real

3| Produtos pensados com base na estética da imperfeição, que recebem deliberadamente adição de irregularidades, erros e contrastes em suas silhuetas

4| Um Tumblr criado para divulgar usuários do Instagram que alegam #nofilter em suas postagens, mas acabam se utilizando do recurso filtro para otimizar suas fotos

5| Dentes imperfeitos. Depois do “London Gap” (dentes separados), inspiração vinda dos dentes de Lara Stone, agora a moda no Japão é o “Snaggleteeth”: meninas que pagam para transformar dentes normais em presas (caninos artificiais, temporários ou permanentes), inspiradas pelo sorriso da atriz Kirsten Dunst

 

Brene Brown, autora do livro “A coragem de ser imperfeito”, vem ajudando pessoas a transformar suas vidas e abraçar quem realmente são, sem a necessidade de corresponder às expectativas dos outros. Brown prega a libertação do perfeccionismo e da comparação, por meio do poder da vulnerabilidade; e defende que ser vulnerável é ter coragem e ousadia para ser você mesmo, sobretudo em uma época de conformidade e fingimento. A autora também traz à tona o conceito de “cultura da escassez”, uma hisperconsciência da falta, na qual impera a questão do nunca ser bom o bastante: “Não sou perfeito o bastante”, “não sou bem sucedido o bastante”, “não sou bonito o bastante”, “não sou magro o bastante”.

Contudo, o Zeitgeist (espírito do tempo) tem mostrado mudanças na mentalidade e direcionamento do mercado, no qual a imperfeição e até mesmo a feiura estão ganhando um novo appeal. A visão não filtrada do mundo se reflete na diversidade cotidiana, ao disseminar atitudes individuais que se manifestam no meio digital por meio de hashtags como, #nofilter, #fail, #awkward, revelando uma mensagem mais autêntica e verdadeira. Logo, torna-se divertido e genuíno compartilhar experiências desastrosas, cotidianas e reais. Isso demonstra que o apelo ao imperfeito vem encontrando seguidores entre os ansiosos por escapar da ditadura da perfeição, fabricada e inatingível na maioria das vezes. Trata-se de um grupo “orgulhosamente imperfeito”, que busca uma versão da vida sem filtros.

“A questão é que está cada vez mais fácil esconder nossas imperfeições e manipular a imagem que desejamos transmitir aos outros.”