MicroTrend > Off-Crowd


O LV que aparece nas fotos promocionais da bolsa é totalmente opcional; se a usuária preferir, é possível encobri-lo com uma aba que fica ‘escondida’ dentro da bolsa.

O que é normal para você? E o que é diferente? Defina (ou pelo menos tente). Durante as minhas pesquisas sobre comportamento humano, começo a perceber que a sociedade chegou a um momento em que os conceitos de normalidade e diferenciação estão invertendo os significados: o diferente se torna o normal, e o normal se torna o diferente. Explico.

Já faz um bom tempo que as pessoas vêm buscando se diferenciar umas das outras, alimentando um ciclo de reinvenção que não para. Customização, personalização e atitude cool nunca estiveram tão em alta. O desejo individual de se diferenciar da multidão já não tem limites, é como se valesse qualquer coisa para se tornar diferente do outro. E se, por um tempo, ser diferente era uma exclusividade dos jovens e adolescentes, ávidos por novidades durante suas jornadas pela busca da autoexpressão e da autoafirmação, já não é mais. A mentalidade que rege o desejo de se diferenciar não tem idade.

Mas a grande questão não é o que está acontecendo, mas sim o cenário que está se caracterizando e os movimentos que se formarão a longo prazo. Se por um lado, os indivíduos já não conseguem conviver com o fato de que, na verdade, somos todos iguais; por outro lado, a consciência de que a busca por diferenciação tornou os diferente iguais ainda não aflorou.

A realidade é que os diferentes começam a se tornar o mainstream e esquisito virou aquele que não tem nenhuma ‘esquisitice’: não pinta o cabelo, não tem tatuagem, não usa piercing etc. O comportamento normal começa a ser caracterizado por uma atitude ‘anormal’. E o comportamento diferente passa a ser marcado por uma atitude ‘normal’. A partir do momento em que a grande maioria se torna diferente, isso passa a ser normal. E diferente se torna a minoria que, por sua vez, são os normais. E já que (quase) ninguém quer ser normal, aqueles que mais exageradamente o são, mais cool acabam ficando. Resumindo: ser normal também é uma forma (totalmente nova e original) de ser diferente. Sim, o debate é complexo, e este artigo não pretende esgotar o tema. Muito pelo contrário, propõe o início de uma reflexão para os novos comportamentos e atitudes dos indivíduos.

Você deve estar se perguntando: “Na prática, como toda esta teoria está se manifestando”? Um dos mais significativos movimentos que vêm acontecendo se dá no mercado de luxo. Depois de toda essa onda de ostentação e rolezinho, as classes mais altas da sociedade não sabem para onde ir, e estão em busca de novas formas de diferenciação, a fim de se afastar da multidão (por isso off-crowd). Com a ‘popularização’ das grandes marcas, onde buscar exclusividade? Onde está o ‘novo luxo’? Tais questionamentos e necessidades obrigam o mercado a repensar o negócio e investir em estratégias que envolvem desde um clima mais intimista, catapultado pela emergência de pequenos ateliês e lojas menores, até a oferta do exótico como uma proposta realmente diferenciadora. 

Já no cenário internacional, por exemplo, a logomomania, febre dos anos 1980, começou a ser questionada a partir do momento em que a Louis Vuitton (que, diga-se de passagem, possui um dos monogramas mais conhecidos no mundo) lançou a bolsa Capucine – coleção Parnassea, sem nenhum logo. O sucesso se deu, em parte, ao respiro em meio a um cenário em que ‘logo’ deixou de ser diferencial, para se tornar ostentação. Com a emergência das classes mais baixas da sociedade e seu maior acesso às marcas de grife, ostentar ficou cafona; e a última coisa que as classes mais altas desejam é ser lançadas a tal patamar.