Fluvia Lacerda: "Vivemos uma revolução feminina"

Falar em quebra de padrões com alguém como Fluvia Lacerda é quase como conversar sobre futebol com Neymar ou Pelé. Aos 37 anos, a modelo se declara plena em todos os aspectos. Dos tabus acerca da estética relacionada ao peso, ela aproveita o espaço para discussões mais profundas e relevantes, como a oferta de opções adequadas na moda, entre outros tópicos. 

Em novembro de 2017, Fluvia lançou sua biografia-manifesto, “Gorda não é Palavrão”, uma lição de empoderamento, cujo conteúdo remete à sua história e ao processo de aceitação de suas formas. Considerada representante legítima de um público consumidor até pouco tempo atrás desamparado em muitas frentes, a carioca criada em Boa Vista/RR é uma das principais tops de sua categoria no mundo. 

Sua carreira começou em Nova York, Estados Unidos, onde mora há mais de 20 anos, em um episódio singular. “Nunca pensei em ser modelo. Na verdade, fui descoberta em um ônibus, em Manhattan, na época em que trabalhava como babá, aos 23 anos. Era tudo novo e nunca sabia o que esperar, mas todas as experiências foram positivas”, conta, em entrevista exclusiva à reportagem da Revista Lançamentos.

De lá para cá, voou em direção ao sucesso, estabelecendo parcerias com inúmeras grifes estrangeiras. Em território brasileiro, a trajetória é mais recente, mas não menos impactante. Para além dos editoriais e passarelas, Fluvia também fez história como a primeira plus size na capa e ensaio principal da revista Playboy, em janeiro de 2017. A seguir, mais do bate-papo com a modelo.

O que motivou você a apostar no mercado nacional, após consolidar  a carreira no Exterior?

Em 2007, durante uma viagem ao Brasil, quando fui visitar minha irmã, minhas malas foram extraviadas. Então, me dei conta de que as mulheres gordas do País não tinham opção alguma na hora de se vestir. Foi quando tomei como uma causa própria buscar ajudar a expandir esse mercado.

O que mudou desde aquela época?

No mercado internacional, as coisas evoluíram bastante. Conseguimos atingir um patamar de reconhecimento que finalmente ultrapassou as especulações quanto a sermos apenas uma onda passageira, trazendo uma estabilidade muito positiva na expansão do mercado. No Brasil, as coisas estão caminhando pouco a pouco, mas certamente na direção certa.

Quais as principais diferenças entre a moda plus size daqui e de outros países?

O tempo de existência. Eu acredito que todo processo evolutivo passa pelos mesmos passos básicos. Uma vez que já atravessamos todos os obstáculos que o Brasil enfrenta agora, tudo isso é apenas uma questão de tempo de mercado.

Como é a sua relação com os sapatos?

Como toda mulher, amo sapatos! Trabalhando com moda, passei a amá-los mais ainda. Não tenho dificuldades em achar o que curta e sirva bem. Porém, recebo centenas de depoimentos de mulheres que encontram muitas dificuldades para encontrar modelos cômodos às suas medidas. Nesse sentido, o posicionamento do mercado brasileiro ainda está bem atrasado.

Que tipos oferecem conforto e beleza ao seu estilo?

Uso todos os tipos de sapato. Afinal, é um item extremamente agregado ao meu trabalho. 

Algum modelo em especial valoriza mais as silhuetas plus size?

Não acredito nesse tipo de regra. Acho que este é um raciocínio retrógrado e luto muito para desfazer esses paradigmas. Acredito que devam existir disponíveis todos os estilos para todos os gostos e tamanhos. Estilo pessoal é indiferente ao manequim que vestimos. O que fica bem para cada uma é uma decisão pessoal, que optamos de acordo com nossa personalidade e não ao fato de ser gorda ou magra.

Quais critérios que você valoriza na hora de escolher um sapato?

Conforto, acima de tudo! 

Na sua opinião, os calçados deveriam ter atributos especiais para o público plus size?

Sim. É um raciocínio lógico diante de fatos evidentes. Somos uma nação altamente diversa e isso é evidenciado em nossos biotipos. Quantas mulheres altas que conhecemos não conseguem achar um sapato de tamanho maior? Ou botas com cano mais amplo? Esses são apenas alguns dos exemplos que encontro em mensagens que recebo de mulheres de toda parte do Brasil. Elas gastam seu poder aquisitivo em outros países na hora de comprar calçados, porque, simplesmente, não conseguem encontrar opções no Brasil.

Com quais marcas de calçado você mais se identifica?

Gosto de muitas! No Brasil, curto muito a Schutz e a Arezzo.

Existe alguma personalidade em quem você se inspira?

Admiro muitas, por razões diversas: Frida Kahlo, Gertrude Bell e Fernanda Montenegro, entre outras.

Como você enxerga o empoderamento feminino na moda?

Estamos vivendo uma revolução feminina que fala por si só. Os fatos se evidenciam a cada dia de forma mais potente. Está claro que não somos seres fictícios. Somos mulheres, existimos e encontramos nossa voz, nos demos conta do nosso poder em todos os sentidos. Isso jamais será uma moda passageira e sim apenas o primeiro estágio de algo muito maior que está por vir.

O que lhe motivou a escrever o livro “Gorda não é palavrão”?

A [editora] Companhia das Letras já havia me convidado para escrever uma autobiografia, mas [na época] ainda não sentia que o timing era o certo. Vivemos um momento em que a intolerância ultrapassa qualquer parâmetro de respeito ou bom senso. Recebi um e-mail de uma menina de 16 anos, que me contou ter tentado suicídio por não suportar a pressão da própria família em relação a ser gorda. Aquilo me chocou a um ponto extremamente impactante. Foi então que decidi aceitar o convite e escrever um livro. Não como uma autobiografia, mas sim algo direcionado à autoajuda, usando minhas experiências de carreira e pessoais como trampolim para abordar assuntos importantes, como autoimagem e o autorrespeito.