DIOR & NÓS

Filmes que abordam a vida de estilistas têm chegado às telas do cinema com mais frequência. Coco Chanel, a famosa estilista francesa, conta com duas películas em 2009 – Coco antes de Chanel e Coco Chanel & Igor Stravinsky. Yves Saint Laurent é outro que se destaca, com Yves Saint Laurent e Saint Laurent, ambos de 2014.

Agora é a vez de Dior, o famoso criador do New Look no pós-guerra. Porém, diferentemente de seus companheiros de profissão, Christian Dior não tem somente sua trajetória narrada no filme Dior e Eu mas, sim, a manutenção de seu estado de ícone do mundo da moda e a propagação de seu sucesso na atualidade. Dirigido por Frédéric Tcheng, o filme mostra a primeira coleção de alta-costura concebida por Raf Simons, estilista que assumiu a maison recentemente.

A presença de monsieur Dior é constante e suas criações permeiam toda a película. Suas memórias são resgatadas em trechos citados do livro Christian Dior et Moi, de 1956. Dior aparece em imagens preto-e-branco, como se representasse a memória da grife, fundada em 1946.

O ateliê é explorado pelas câmeras e as grandes estrelas são ninguém menos que a própria equipe de costura, que desafia o tempo, desdobrando-se no atendimento de clientes VIP – que, de fato, sustentam essa indústria – e dos desejos de Raf Simons para materializar seus pensamentos em vestidos e roupas com altíssima qualidade em detalhes e acabamentos. Poucas marcas de moda ainda trabalham com alta-costura no mundo, reflexo da nova realidade econômica pela qual diversos blocos econômicos passam.

Como num mundo de sonhos, Raf vai dando forma ao seu processo criativo, explorando um universo de referências e de inspirações para compor texturas, volumes e até mesmo estamparias. O tempo vai passando e a pressão aumenta para que tudo esteja pronto para o grande momento em que imprensa e celebridades de todo o mundo se reúnem para conhecer a nova coleção.

Dior e Eu explora muito mais que uma marca famosa do mundo da moda, muito mais que seu criador, muito mais que as celebridades que a vestem. Nos apresenta a essência da marca Dior, o compromisso de Raf Simons não em ser um novo Dior, muito menos em prender-se a reinterpretações ‘diorescas’, mas sim de afinar uma coleção de alta-costura que deve se conectar com um mundo atual, parecer nova e fresca, sem jamais perder a identidade Dior.

 

E o belga alcança seus objetivos de forma espetacular. A coleção desfilada para o inverno 2012 – haute couture – é um sucesso de crítica e público. Centenas de milhares de flores frescas preenchem completamente as paredes da instalação onde o desfile ocorre, perfumando um novo caminho que a maison começa a trilhar, com aportes num minimalismo chic e envolvente.

Simons, muito tímido, mal aparece ao final da apresentação, que é um dos mais importantes momentos do estilista em todo o processo criativo. E talvez essa timidez seja sua grande semelhança com o próprio mestre Dior que, assim como ele, preferia o backstage aos holofotes.