ACIMA DE TUDO, PLATAFORMA

Por Camila Veiga

O salto plataforma é um dos personagens célebres no grande palco da história do calçado. E não foi com intuito fashion que ele foi criado. Era sua funcionalidade que falava mais alto; literalmente alto. Há registros de que na Grécia Antiga as plataformas serviam de base para os sapatos usados por atores do teatro. Quanto mais alta fosse a sola, mais importante era o personagem.

Na Idade Média, o solado deu forma ao patten (1), acessório feito em madeira que mantinha os pés dos nobres e dos camponeses protegidos da lama. Posteriormente, o patten tornou-se mais elaborado e resultou no feminino chopine (2), formato de sandália que conquistou a aristocracia italiana. Suas plataformas podiam ultrapassar 50 cm de altura, e era essa medida que caracterizava o poder da mulher. No final do século XVIII, o salto ganhou representatividade na China, com o advento da Ópera de Pequim. No misto de música, dança e acrobacia, botas de seda com plataformas calçavam os atores – e, novamente, mais importante era quem subisse no maior salto.

 
1 e 2.

Nos períodos seguintes, o desejo pela postura elegante, possibilitada pelo salto alto, serviu de inspiração para outros formatos, e a plataforma tornou-se coadjuvante. Mas nos anos 1930, um criador trouxe seu estrelismo de volta. Seu nome? Salvatore Ferragamo (3). O mestre em sapatos italiano nasceu em 1898 e aos 16 anos de idade já produzia acessórios feitos à mão. Em 1927, depois de passar tempos em Hollywood, retornou ao país de origem e abriu, em Florença, sua oficina. Até 1957, ele criou mais de 20 mil modelos de sapatos e registrou 350 patentes, entre elas, o salto plataforma.  


3.

Sua criação foi motivada por uma necessidade. Sob o regime fascista de Benito Mussolini, a Itália sofria com a carência de muitos produtos, entre eles, o aço que servia de sustentação para os calçados. Ferragamo, então, encontrou na cortiça a matériaprima adequada para dar forma a um inusitado salto, inserindo o termo plataforma na enciclopédia da moda mundial. O elemento natural, leve e durável foi glamourizado com o revestimento de brilhos e cores.

A sandália plataforma que Ferragamo criou para a atriz de Hollywood Judy Garland tornou-se icônica (4). Seu cabedal na cor dourada contrasta com um arco-íris de tons alegres que, em camurça, formam listras em relevo no solado. Para Carmen Miranda (5), que mantinha um acervo de construções do estilo, outra variação recebeu o efeito de espelhos em um modelo (6) que exaltou o tom do ouro. A partir daí, a plataforma não saiu mais de cena.

 
4, 5 e 6.

Seu novo auge chegou com o sucesso das discotecas, ao som de ABBA (7); do rock, embalado por Kiss (8); e com a popularidade do movimento hippie nos anos 1970. Sandálias, tamancos e botas, para eles e elas, subiram às alturas – com média de 12 cm. Na década de 1990, o grupo musical Spice Girls (9) retomou as plataformas. E em 1994, do alto de uma delas, a top Naomi Campbell caía na passarela da semana de moda de Londres, na Inglaterra (10). Desenvolvido por Vivienne Westwood, o salto que a modelo calçou media 10 polegadas, o equivalente a 25,4 cm (11).

 
7 e 8.

  
9, 10 e 11.

 

De Louis Vuitton (12) a Alexander McQuenn (13), a plataforma ganhou novas interpretações, que repercutiram nas vitrines do mundo com efeito de adoração – especialmente no Brasil (14). Mas também desagradou a muitos. Manolo Blahnik, designer de saltos finíssimos, define a plataforma como horrível, absolutamente deselegante.

  
12, 13 e 14.

Com base reta, o salto inspirou a flatform (15), sua versão mais suave. Localizada apenas na parte frontal, recebeu o nome de meia-pata (16). Outra opção semelhante é a anabela (17), solado curvo que começa quase rasteiro e aumenta gradativamente até a parte traseira do pé.

  
15, 16 e 17.

Em diferentes versões, desfiles internacionais já anunciam que o ícone não será esquecido no inverno 2014 – exemplo é o tratorado apresentado por Stella McCartney (18). Já para o verão 2015, as grifes ICB (19) e Vivienne Tam (20) mostram que o estilo batizado por Ferragamo segue forte, acima de qualquer modismo.

  
18, 19 e 20.