Tempo, tempo, tempo

Estamos vivendo o momentum séries. Vivemos o hábito de assistir a inúmeras delas com base em nosso gosto particular por tema, atores, cenários, trilha sonora, vestuário etc. Os personagens viram nossos amigos, parentes, pseudoamantes. As séries tornaram-se a própria vida social – uma versão moderna de entretenimento individual, familiar ou reunião de amigos e fãs. E o quanto mais perto chegarmos de um personagem, mais humanos – e capazes de transcender barreiras culturais – eles ficam. Game of Thrones, House of Cards, Homeland, Breaking Bad e Stranger Things. Há títulos para todos os gostos e idades. Basta escolher qual memória afetiva você quer acionar, para que a celebração da nostalgia aconteça.

A série das séries

Esta relação da proximidade com uma época faz de Outlander a série da série, o sucesso do sucesso. Mescla história com romance – e um romance através dos tempos, quando os personagens principais, sexies e sensuais, envelhecem.

Ui, falei a palavra que todos que trabalham ou entendem de moda dizem saber lidar: envelhecer. Sempre ouço o discurso de que o cérebro permanece jovem, só o corpo é que sofre com o passar dos anos. Acredito que entender o passado é uma das maiores virtudes da raça humana. Visitar a história nos faz compreender nosso presente e antecipar nosso futuro. 

Exatamente por isso que Outlander, série baseada em oito livros da escritora Diana Gambaldon, ambientada na Escócia dos anos de 1740, é sucesso. Exibida no Brasil pela Fox Premium, a trama desperta uma curiosidade natural em saber os costumes e crenças das pessoas que viveram séculos atrás.

No enredo, Claire (Caitriona Balfe) é uma enfermeira da Segunda Guerra Mundial que tenta se reaproximar de seu marido, Frank Randall (Tobias Menzies), após o término da guerra. Durante uma viagem a Inverness, cidade da origem da família de Frank, Claire descobre por engano um portal e acaba transportada para a Escócia no ano de 1743, completamente longe de sua realidade. Lá ela conhece Jack Randall, o perigoso antepassado de seu marido, e Jamie Fraser (Sam Heughan), por quem acaba se apaixonando. 

Claire se torna uma curandeira e, neste romance, é uma mulher mais velha que encontra seu grande amor, anos mais jovem. No meio dos conflitos entre Escócia e Inglaterra, Claire, Jamie e Jackie Randall desempenham um papel significativo, mostrando todos os acontecimentos que antecedem a Batalha de Culloden, onde os escoceses são dizimados e subjugados pelos ingleses. Claire está grávida e Jamie força seu retorno pelo portal. 

Ela volta, tem sua filha e forma-se médica numa época onde nós mulheres não podíamos ser mais do que donas de casa devotas – estamos falando dos anos 1940 e 1950. E, assim, a cada episódio revela-se a força, inteligência e coragem desta personagem, em pleno processo de envelhecimento vivido ao longo série, com seus fatos históricos, figurino impecável, cenário perfeito e paisagens deslumbrantes.

Burberry de olho no fenômeno

Vale lembrar que nada é por acaso no mercado da moda. Prova disso é o mais recente desfile da Burberry, cujo looks mais comentados foram os uniformes ingleses e os xadrezes impecáveis da marca, inspirados em uma exposição que o diretor criativo da grife, Christopher Bailey, menciona em suas entrevistas. Mas são inegáveis as semelhanças de corte, modelagem, cores e detalhes com o figurino de Outlander.

Uma jornada para reflexão

A mensagem deixada pela série vai além dos fatos históricos, do vestuários, dos cenários e das paisagens. A história e a importância de Claire é o que fica. Os livros que inspiraram a série falam desta mulher, de sua história, de sua jornada e escolhas.

E tudo passa pelo envelhecer. Neste seu retorno que é abordado nesta terceira temporada, sua maior preocupação é como seu amor Jamie a enxergará. Bonita? Velha?

Quem acompanha a série sabe dos percalços enfrentados por Claire. Da gravidez sofrida, à entrada na faculdade de Medicina em Harvard. Era a única mulher da classe e amiga do único negro da turma, nada que a impedisse de e se tornar a melhor cirurgiã de sua especialidade. Atitude e opiniões fortes de quem trabalha fora de casa numa sociedade dos anos 1950 e 1960 também não lhe faltavam.

Intérprete de Claire, a atriz Caitriona Balfe declarou, recentemente: “Não importa onde ela esteja, Claire sempre exige o mesmo respeito e justiça. Ela sempre defenderá aqueles que não estão em posição de poder e tentará cuidar e curar aqueles que estão em posições vulneráveis. Não importa onde está, ela sempre fala o que pensa”.

Em um mundo onde temos tantas executivas, empresárias e mulheres como provedoras se seus lares, é muito bom ver uma série que mostra uma mulher/heroína fictícia real como o centro de uma história de romance, com embasamento histórico, mostrando sua total independência de pensar.

Ainda reproduzindo o que disse a atriz, “o que Jamie e Claire vivem conversa com essa ideia de que, quando você tem uma conexão de alma com alguém, não importa em que tempo essa pessoa viva, ou quanto tempo passe. Essa conexão sempre falará mais alto através do tempo, o que é uma linda ideia. (...) Gosto de imaginar que é possível que a sua energia simplesmente não desapareça uma vez que você morre, que isso vive de alguma outra forma.”