UMA RASTEIRA NA MODA

Especialistas em dress code avaliam a real proporção da polêmica sobre a obrigatoriedade – ou não – do uso de salto alto em eventos de black tie como o Festival de Cannes

Salto alto ou flat: eis a questão. A 68ª edição Festival de Cannes, uma das mais importantes premiações do universo cinematográfico, em maio deste ano, foi alvo dessa polêmica. Afinal, existe uma regra de etiqueta que estabeleça a necessidade do uso de salto em eventos de black tie? Celebridades que compareceram ao festival na icônica cidade francesa foram barradas pelos seguranças por não estarem usando modelos de salto alto e fino; algumas calçavam rasteiras, outras sapatilhas ou salto médio. Apesar de a assessoria do evento ter emitido um comunicado oficial negando que houvesse essa regra formal, o acontecimento gerou alvoroço entre os famosos e nas redes sociais.

O dress code, que nada mais é do que um código de vestimenta, existe há muito tempo e é indispensável em eventos como Cannes. Contudo, esse conceito é tão subjetivo que até entre especialistas no assunto há divergências de opinião. Para a jornalista e consultora de moda Gloria Kalil, não existiriam motivos para proibir as pessoas que estivessem sem salto de entrar no evento e, por isso, ela não acredita que isso tenha, de fato, acontecido. “Não poderia ser, pois não há obrigatoriedade de salto no traje de gala. É claro que a pessoa não pode aparecer com chinelo de dedo, mas existem diversos outros modelos de sapato flats que são compatíveis com o tapete vermelho”, opina.

Para Gloria, o salto alto pode, sim, dar mais elegância e sofisticação, mas a mulher não precisa sentir-se no dever de usá-lo. Inclusive, mesmo se a pessoa não tiver uma estatura muito alta, não há motivo para constrangimento. “Se não se importar em estar com um flat, não são os outros que precisam se preocupar”, diz. A consultora defende, também, o trabalho que as indústrias têm feito. “Muitas marcas estão apresentando sapatos sem salto delicadíssimos, com pedrarias, cetim, metalizados”, exemplifica.

Consultora de moda e fundadora da Investida Consultoria de Imagem (Rio de Janeiro/RS), Janiny Almeida acredita que existem regras sobre a vestimenta em festivais deste porte e elas devem ser cumpridas, pois trata-se de etiqueta e, se existe um padrão, todos deveriam segui-lo. “No livro de minha autoria, De bem com o Espelho, explico, dentro desse dress code, que os sapatos devem ser altos e finos, e as sandálias devem ter tiras delicadas”, detalha, lembrando que, quando alguém organiza uma premiação, espera que os convidados deem a devida importância e compareçam com uma produção que faça jus ao evento. 

“Nesse caso, o errado não é quem barrou, mas sim quem não soube se informar a que evento estava indo”, critica, enfatizando que, como toda regra, há exceção. Ou seja, se alguma pessoa tiver qualquer dificuldade para caminhar, alguma deficiência ou então em se tratando de senhoras de mais idade que não conseguem se equilibrar em um salto, não haveria outro motivo para barrá-las a não ser a falta de orientação dos seguranças.

Quem compartilha desta opinião é um dos editores do Petiscos, portal de moda e tendências, André do Val. Ele explica que o Festival de Cannes está sendo administrado pelo grupo Kering, que detém muitas das mais importantes grifes de moda internacionais, como Gucci, Bottega Veneta e Saint Laurent Paris. Por isso, o tapete vermelho tem muita importância e pode ser visto, inclusive, como uma plataforma de lançamento de moda de gala e festa. “Sendo assim, nada mais justo do que querer recomendar um dress code que garanta que as pessoas estejam vestidas de gala: os homens de smoking e as mulheres de vestido longo e salto alto. Então, não acredito que haja uma tentativa de desequilibrar os gêneros”, comenta, referindo-se ao fato de que muitas mulheres sentiram-se ofendidas, alegando falta de igualdade entre os sexos feminino e masculino.

Além disso, na opinião do editor, mulheres ficam exuberantes em salto alto e exalam feminilidade. “Tem coisa mais linda do que mulher de salto?”, questiona retoricamente. “Claro que não precisa se equilibrar além da capacidade física, mas não esqueçamos que as celebridades ganham muito dinheiro das marcas para vestirem suas roupas, suas joias e seus acessórios, entre eles joias caras e saltos altísssimos, então não vejo como uma recomendação fora de propósito”, argumenta.

Já a personal stylist e personal shopper Katia Fridrich avalia a atitude de barrar alguém simplesmente porque a pessoa não está usando salto é totalmente incorreta. “É claro que o black tie é um traje formal, mas, hoje em dia, não é algo tão rígido. No passado, por exemplo, só era permitido usar vestido longo. Atualmente, vestidos curtos, mídi e afins também são superaceitos. Desde que, claro, sejam adequados e bem arrumados”, aponta.


Ícone mundial de estilo, Ines de La Fressange de sandália flat em Cannes

De acordo com Katia, o salto faz parte dos acessórios femininos, como bolsa, joias e cintos. “O salto pode dar um up no look, mas isso não quer dizer que quem não usá-lo não vai estar top”, brinca. Além disso, a personal stylist garante que existem rasteiras ultraluxuosas e que o sapato faz, sim, parte da produção. “A roupa e o sapato devem conversar, mas a mulher tem liberdade e a opção de usar ou não um calçado alto”, complementa, ressaltando que é preciso ter bom senso e respeitar o ambiente.

#GUERRA DOS SEXOS
Alguns especialistas como Janiny não acreditam que a atitude do Festival de Cannes tenha sido sexista. “Os homens são obrigados a trajar smoking. As mulheres têm, inclusive, mais liberdade, pois podem escolher qual modelito usar, desde que atenda aos padrões do código de vestir”, exemplifica. Esse também é o pensamento de Katia. “Para eles, é smoking, no máximo blazer ou terno e, normalmente, gravata borboleta ou, então, uma gravata fininha. As mulheres podem ousar bem mais.” Gloria também é contrária a essa opinião e lembra que, na Renascença, os homens que usavam salto. “É claro que os modelos de salto são um pouco mais restritos, pois muitas mulheres não o usam o tempo todo”, pondera.

Enquanto alguns não acham que a atitude tenha ofendido as mulheres, há profissionais que acreditam que o que aconteceu foi um ato de desigualdade. Cristina Sant’Anna, consultora nas áreas de gestão e estratégias em design e moda e diretora criativa e de estratégias do Studio Cristina Sant’Anna, defende a ideia de que a organização do festival não é progressista quando se trata de direitos das mulheres, mesmo que a igualdade de gênero tenha sido um tema-chave em muitos dos filmes na seleção deste ano.

“Pela primeira vez, em 2015, o festival foi aberto com um filme de uma diretora, mas contradições ficaram evidentes”, constata. Segundo ela, as mulheres poderiam exigir judicialmente que homens também fossem obrigados a usar salto alto. “Não poderia haver diferença nas exigências, podendo ser considerado preconceito”, critica. E, caso houvesse algum dano à saúde, como dores lombares e problemas ósseos, as celebridades que se sentissem lesadas também poderiam buscar seus direitos. “Apesar dos grandes avanços na igualdade de gênero, num trocadilho, os sapatos ainda são o calcanhar de Aquiles do feminismo. Os saltos deveriam ser uma escolha pessoal”, pontua.

De acordo com Cristina, a moda glamouriza o salto e o mundo corporativo o associa com riqueza e sucesso. “Na realidade, os saltos altos simbolizam a sexualidade e a feminilidade e, consequentemente, para muitas mulheres, a submissão numa visão bem contemporânea de um novo feminismo que hoje encontra respaldo até dos homens”, provoca. “Eles, supostamente, aumentam a estatura através do reposicionamento do corpo – mudando a aparência física das pernas – mas, ao mesmo tempo, auxiliam numa objetificação sexual”, finaliza.