D.I.Y (DO IT YOURSELF)

POR GRAZZIELA DOBLER

CUSTOMIZAÇÃO CELEBRANDO A INDIVIDUALIDADE

Em tempos de produção massiva e fast fashion, ter algo para chamar “só de meu” virou motivo sentimental para os consumidores. Viver nessa roda viva que é a moda parece estar causando náuseas em fashionistas antenados. E quem vem cooperando para a diferenciação da moda e instigando os criativos é ela, a tão conhecida - e cada vez mais praticada - customização. A técnica, que é baseada no reaproveitamento de roupas, tecidos, sapatos, adereços e outros, para a criação ou reformulação de uma peça com caráter pessoal, tem ampliado sua participação, oferecendo ao cliente um produto exclusivo e com personalidade ímpar.

O estilista Walter Rodrigues, apoiador da filosofia do ‘faça você mesmo’, afirma que a indústria ruma, cada vez mais, para o caminho da individualidade. “Estamos muito iguais”, pontua. A sentença, que vem como um soco no estômago, também traz um alento: “mas isso está mudando”. O espírito do tempo, segundo o estilista, persegue a legião da moda. “A cada estação, temos lançamentos e novidades produzidos para uma população mundial, e o que é produzido apenas para nós, com o rótulo único?” questiona. De acordo com ele, a prática da customização vem de uma relação de cultura da sociedade. “É um costume. Eu tenho esse costume”, revela Rodrigues, reforçando que “é aí que o antigo se renova, ganhando caráter único e identidade que leva nome próprio”.

Nas passarelas, a ideia de customização, que também carrega consigo a prática sustentável, tem ganhado ênfase através da bandeira ‘ecofashion’, politicamente correta aos olhos da sociedade. Alexandre Herchcovitch é um dos embaixadores do reaproveitamento de materiais. O estilista costuma reutilizar os tecidos usados em suas coleções passadas para criar novas peças. O mesmo faz Isabela Capetto, que recicla roupas antigas dando a elas um novo visual.

:: CUSTOMIZANDO O NOVO 
A cool hunter Sabina Deweik, diretora da sede de São Paulo do instituto italiano de pesquisas de tendências de consumo Future Concept Lab, atua há 15 anos no ramo e afirma: “a customização tem grande potencial perante a indústria da moda”. De acordo com Sabina, o consumidor de hoje quer ser o protagonista de suas escolhas; não quer mais algo pronto. “Está havendo um movimento em busca de autenticidade”, enfatiza, explicando que o mundo está em recessão. “As pessoas estão pensando duas vezes antes de jogar algo fora. Poder transformar algo velho em algo novo é rebuscar o lado sustentável do consumidor”, complementa.

Além disso, a cool hunter conta que é cada vez mais difícil identificar a real necessidade do consumidor. Desta forma, oferecer a ele a possibilidade de “faça você mesmo” resolve grande parte desse problema. “Oferecendo-lhe a oportunidade de customização, a marca cria uma história com o cliente. Não é apenas uma troca monetária”, finaliza.


Galeria Melissa de São Paulo/SP

Mas a customização não se limita unicamente ao reaproveitamento de peças antigas. A técnica pode partir do novo. A adaptação desse lifestyle tem conquistado marcas que buscam oferecer a tão sonhada individualidade aos seus clientes. Produtora dos calçados de plástico mais conhecidos do Brasil – talvez do mundo –, a Melissa (Farroupilha/RS) já desenvolveu ações nas quais o cliente escolhia um par de sandálias, podendo dar uma repaginada no produto, aplicando brilhos e outros acessórios.

A brasileiríssima Havaianas (São Paulo/SP), do grupo Alpargatas, também é adepta da tendência. A marca oferece ao cliente a possibilidade de customização através do Espaço Havaianas, na capital paulista. Situado na rua Oscar Freire, nos Jardins, o local reserva uma área em seu interior com dezenas de tiras e solados de cores variadas para aqueles que desejam criar um modelo exclusivo da sandália. Em 2011, a marca iniciou uma série de eventos intitulado “Make Your Own Havaianas – Invente sua Própria Havaianas”, em concorridas lojas de departamento, como a espanhola El Corte Inglés, a inglesa Selfridges e a francesa Galeries Lafayette. A ação, que oferece tiras, pingentes e adereços para a customização das sandálias, é realizada esporadicamente até hoje.


Espaço Havaianas da rua Oscar Freire,em São Paulo/SP

:: APELO SENTIMENTAL
Tendo como critério de produção o caráter exclusivo, a Ushtemp (Lajeado/RS) iniciou seus trabalhos em 2011 e, hoje, colhe os frutos de uma jornada de sucesso. A empresa, administrada pelos jovens sócios Fernando Bildhauer, 26, e Fabiano Bladt, 31, apostou na customização por intermédio de diversas vertentes. Uma delas funciona pelo site da marca, no qual o cliente cria a sua própria estampa, podendo visualizá-la em 3D e adquiri-la, recebendo em casa, no final, um tênis exclusivo.

Outra opção é o reaproveitamento do jeans, estratégia oportunizada a partir da parceria firmada entre a Usthemp e a rede de franquias Restaura Jeans. A calça que não é mais utilizada vira matéria-prima para a produção de um tênis único. Bildhauer acredita que a parceria obteve resultados tão bons por conta do apelo sentimental. “A calça jeans é uma peça que nos acompanha em diversos momentos da vida e carrega um valor pessoal”, salienta, contando que, certa vez, uma mãe trouxe a pequena calça jeans do filho, de quando ele era uma criança, para transformá-la em um tênis. “Essa é a ideia principal: oferecer às pessoas algo exclusivo”, pontua.

Seguindo outra vertente, mas sem perder a essência colaborativa, a marca usa o apelo à arte para fomentar sua mais recente inovação: estampas desenvolvidas em parceria com três artistas brasileiros: Fernando Volken Togni, Cadu Mendonça e Thiago Carvalho. As artes, que se renovam de tempo em tempo, estampam diversos modelos de tênis.

:: INICIATIVA DE 300 MIL ACESSOS POR MÊS
Mariely Del Rey (Votuporanga/SP) é designer e, em 2009, criou o Customizando.net, blog que dá dicas de como modificar peças usando materiais práticos e de baixo custo. Ela explica que a customização sempre esteve presente em sua vida, assim como a vontade de criar e desenvolver peças a sua maneira.

No blog, Mariely ensina como acrescentar a roupas, calçados e acessórios um caráter diferenciado. “Customizar é uma questão de atitude. As pessoas customizam por vários motivos. Há aquelas que querem ter algo diferente e exclusivo, e há as que customizam para reaproveitar e economizar”, detalha a blogueira. Ela conta que, desde 2009, a procura só aumenta e, hoje, o site concentra 300 mil acessos por mês, o que reflete o interesse dos leitores na reformulação de artigos. “Blogueiras adoram customizar, e o portal virou uma espécie de central que concentra diversas dicas e tutoriais”, detalha.

Ela salienta que recebe muitos contatos de pessoas que estão customizando e vendendo suas peças. A maioria pede sugestões de como vender. E o conselho da blogueira é pontual: “Investir tempo e dinheiro é essencial. O importante é mostrar a cara. O retorno vem com o tempo”.


Fernando Bildhauer e Fabiano Bladt apostam na customização e na originalidade