Materiais do futuro para calçados do presente

Divulgação Materiais do futuro para calçados do presente Cadeia de componentes inova para atender segmento de esportivos
PUBLICADA EM 07/03/2018 - Michel Pozzebon

Há 28 anos, o filme ‘De Volta Para o Futuro: Parte 2’ (Back to the Future Part II) apresentou para o mundo o Nike Mag, tênis que amarrava os cadarços sozinho. Toda criança no mundo queria um par daqueles, calçado por Marty McFly, personagem vivido por Michael J. Fox. O que era ficção virou realidade em 2016, quando a Nike produziu o HyperAdapt 1.0. O produto foi leiloado em Hong Kong por mais de R$ 340 mil. 

Este é apenas um exemplo entre as inúmeras tecnologias que têm encantado o consumidor, especialmente no nicho dos esportivos. Tanto que, após dois anos de queda, o segmento voltou a crescer.

Conforme a consultoria britânica Euromonitor, a venda destes artigos movimentou R$ 12,71 bilhões no País no ano passado, alta de 1% na comparação com 2016. O mercado de calçados de performance, que inclui tênis para corrida, futebol e academia, é o maior entre as três categorias acompanhadas pela consultoria e gerou cerca de R$ 6,80 bilhões em 2017. 

Querendo surfar nesta onda, a indústria de componentes se volta para o futuro e busca desenvolver materiais e técnicas surpreendentes para produtos do presente. Confira, a seguir, alguns cases de sucesso.

KNIT – o componente do momento
Um dos elementos que vem ganhando amplitude na indústria de calçados esportivos é o cabedal de tecelagem técnica 3D (knit). A inovação feita em processo de peças fully shaped (tecido diretamente no formato final e sem deixar resíduo). 

“É uma tecnologia que permite utilizar diversas técnicas de tecimento, gerando o máximo de performance para atletas de alto desempenho”, descreve o diretor da Top Shoes Brasil (Novo Hamburgo/RS), Gustavo Dal Pizzol. A empresa de desenvolvimento de calçados é pioneira em trazer a tecnologia para o Brasil, por meio da alemã Stoll – companhia que criou a técnica em conjunto com a Nike.

Esse método permite fazer um calçado sem costura e com tensionamento, ou flexão, adequado em pontos específicos do produto. “E isso faz toda a diferença quando falamos de performance”, acrescenta.

As grandes marcas mundiais de calçados esportivos vêm buscando e licenciando empresas de desenvolvimento em diversos países. Neste âmbito, enquadram-se empreendimentos como a Top Shoes Brasil, que tenham capacidade de propor e criar soluções adequadas em suas linhas de produtos. 

“Somos um elo entre a marca e a fábrica. Estamos direcionando o trabalho para empresas que tenham liberdade para desenvolver seus próprios projetos com viés nacional. Como é algo novo e requer um trabalho bastante complexo, os modelos que estão sendo desenvolvidos hoje, provavelmente, estarão no mercado somente no segundo semestre de 2019”, completa o empreendedor.

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Outra exigência do segmento esportivo para os fornecedores de matéria-prima são as adequações a normas internacionais ambientais e selos de práticas de compliance. Trata-se do conjunto de disciplinas para fazer cumprir as normas legais e regulamentares, as políticas e as diretrizes estabelecidas para o negócio e para as atividades da instituição ou empresa, bem como evitar, detectar e tratar qualquer desvio ou inconformidade que possa ocorrer.

Projetos para solados
A Top Shoes Brasil aproveita o seu know-how com o knit para desenvolver também um projeto para solados, similar ao realizado com os cabedais. “Estamos finalizando parcerias com grandes empresas de componentes, matrizaria e injeção, para termos a capacidade de desenvolver, no Brasil, solados com design e tecnologia de ponta”, antecipa o gestor.

Fios em elastano com maior resistência
Entre as principais exigências dos fabricantes de calçados esportivos para o desenvolvimento de materiais estão fios de maior resistência, também chamados de fios texturizados – caso aconteça um rompimento da fibra, isso não danificará o cabedal. 

“O elastano que aplicamos precisa ter resistência e memória superior, para garantir o movimento sem distender, ou seja, inúmeras características que são próprias deste tipo de produto e que precisam ser projetadas e testadas para cada necessidade”, detalha Dal Pizzol.

Indústria têxtil e o desafio da resistência
A ITM (Farroupilha/RS), empresa de soluções tecnológicas para a indústria têxtil, oferece ao mercado cerca de 30 famílias diferentes de produto, separadas por funcionalidade, com diversas características específicas para calçados. A maior parte delas pode ser demandada pelo mercado de calçados esportivos, que solicita, por exemplo, resistência.

Sensação de conforto, forros de alta performance, produzidos com tecnologia 3D, a partir de tecidos ultra-absorventes, com gerenciamento de microclima, são algumas das inovações disponibilizadas pela companhia. “Buscamos continuamente alternativas e novidades em matérias-primas, estruturas e diversas formas de composição de materiais. A empresa atende, há mais de uma década, o mercado profissional de calçados e roupas, segmentos que demandam tecidos tecnológicos e ajudam a ITM a desenvolver componentes cada vez mais inovadores”, explica o diretor da ITM, José Carlos Trujillo.

Todos conectados
Nos projetos que envolvem a indústria de calçados esportivos, a ITM trabalha com conjunto com a cadeia produtiva, conectando ações e pesquisas junto a fornecedores e demandas dos clientes. O foco do trabalho com este tipo de matéria-prima está diretamente relacionado à composição e a soluções que otimizem o processo produtivo, como cabedais e forros prontos. 

Neste sentido, a companhia oferece uma linha que mistura poliéster e poliamida em faces diferentes do tecido, combinação que aumenta a versatilidade de criação para os designers.

Nanotecnologia em prol da saúde dos pés
A indústria da Serra gaúcha tem um processo de ponta em dublagem, que permite à empresa oferecer soluções customizadas e completas para o mercado, como é o caso da linha 3D. “É uma mistura de tecido com poliamida de alta resistência no cabedal, com acabamentos que oferecem hidratação e sensação de bem-estar, além de proteção contra fungos e bactérias”, especifica Trujillo. 

EVA e borracha: foco na absorção de impacto
Para atender ao segmento de materiais para calçados esportivos – responsável por 30% da produção da Tacosola (Novo Hamburgo/RS) –, a companhia fabrica solados de borracha e EVA em placas e bobinas, item largamente utilizado tanto em palmilhas quanto em entressolas. Além disso, a companhia fornece espuma vinílica acetinada. Também produz palmilhas, entressolas e desenvolve processo de co-molding da sola de borracha com a entressola de EVA. 

Estas estruturas são aplicadas para formar toda parte inferior do calçado. “O EVA tem uso mais amplo entre os calçados esportivos e também as exigências são as mais variadas. Normalmente, ele é sinônimo de conforto. A absorção de impacto e memória, que significa a capacidade do material de retornar ao formato original após ser deformado, são características importantes deste tipo de componente”, sustenta o diretor de Marketing da Tacosola, Rodolfo Gil Moehlecke.

Ele acrescenta que a borracha costuma ser mais utilizada em chuteiras e tênis de corrida, por ser um material resistente ao desgaste (abrasão) e rasgamento.

Atributos necessários aos tecidos
O Grupo Cofrag (Sapiranga/RS) tem acompanhado de perto a evolução da indústria de calçados esportivos. A empresa dedica esforços para o aprimoramento das tecnologias em tecidos para forros, cabedais, palmilhas e confecção (linha fitness), produzidos a partir das principais fibras disponíveis no mercado. 

Um exemplo é a poliamida biodegradável desenvolvida pela unidade paulista da companhia, a Cofratec. “Após pesquisa, exploramos todas as matérias-primas disponíveis, submetendo-as aos testes exigidos de acordo com o produto ao qual serão destinadas. Posteriormente, inicia-se o processo de tecelagem, tingimento e beneficiamento dos materiais, adequando a melhor tecnologia ao processo fabril”, ressalta o diretor-presidente do Grupo Cofrag, Gilmar Haag.

Ele comenta que, entre os principais desafios do desenvolvimento de materiais para a indústria de calçados esportivos, está agregar num único produto atributos como resistência, beleza e conforto. “Em função disso, todos os nossos materiais são creditados por meio de normas internacionais, tanto físicas quanto químicas, prezando a qualidade do produto final e, consequentemente, o bem-estar dos consumidores. Mantemos total atenção à rastreabilidade dos processos, devido aos prazos de desenvolvimentos cada vez mais curtos, o que nos possibilita lançar novidades constantes para o mercado”, complementa o gestor.

Sistema de amarração elástico
A Hickies Brasil (São Paulo/SP) foi a pioneira em repensar o tradicional sistema de atacadores. O produto ícone da empresa, o Hickies Lacing System, ou sistema de amarração elástico, é feito de um elastômero de alta performance que se flexiona com o movimento dos pés, enquanto proporciona ajuste e estabilidade. 

“O sistema conecta cada par independentemente, por isso garante um ajuste perfeito e controle da tensão, permitindo áreas mais apertadas e outras mais folgadas no mesmo calçado. O resultado é simples: calçados ainda confortáveis, seguros e fáceis de colocar e tirar”, explica o head da companhia, Bruno Rigonati.

Além de ser uma alternativa ao cadarço no dia a dia, o Hickies Lacing System, vendido em 47 países e que já contabiliza mais de 4 milhões de unidades comercializadas, se aplica a qualquer prática esportiva – como corrida, treinos funcionais, tênis, golfe, entre outras atividades. 

O produto também é indicado para pessoas com coordenação motora limitada. Atualmente, a empresa tem unidades produtivas no México, por questões logísticas e operacionais. A distribuição exclusiva no Brasil é feita pela BR Sports – holding que detém as marcas Topper Brasil, Rainha e Saucony e que pertence ao portfólio de investimentos do empresário Carlos Wizard Martins.

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